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Opinião Quarta-feira, 06 de Dezembro de 2023, 16:17 - A | A

Quarta-feira, 06 de Dezembro de 2023, 16h:17 - A | A

Fellipe Valle

Qual a patologia responsável pela “água no joelho”

Fellipe Valle
MQF

A famosa água no joelho recebe o nome científico de derrame articular. E ele tem várias etiologias (agentes causadores). Entre eles podemos destacar a artrose, que foi tema recente de discussão por aqui, e a lesão meniscal, que será explicada logo abaixo.A famosa água no joelho recebe o nome científico de derrame articular. E ele tem várias etiologias (agentes causadores). Entre eles podemos destacar a artrose, que foi tema recente de discussão por aqui, e a lesão meniscal, que será explicada logo abaixo.

Os meniscos estão localizados no joelho e são estruturas que ajudam a “encaixar” o fêmur (osso da coxa) sobre a tíbia (osso da perna), aumentando a área de contato entre os dois ossos. Funcionam como um amortecedor natural, que absorvem o impacto e impedem um contato mais agressivo entre esses ossos. Cada joelho tem dois meniscos: um na parte interna (medial) e outro na parte externa (lateral).

Essas estruturas são consideradas nobres pois protegem a cartilagem. Mas não raramente eles podem sofrer lesões. As lesões meniscais podem ser crônicas ou agudas. 

As crônicas, ou degenerativas, estão associadas ao desgaste que ocorre no joelho como um todo. Aos poucos, esse desgaste vai fragilizando os meniscos até que, com um esforço mínimo, eles se rompem. Muitas vezes, os pacientes apresentam diversos pequenos pontos de lesão. Habitualmente o paciente não sabe ao certo definir quando a dor começou e seu local exato. Todo o joelho dói (dor difusa) e, em alguns casos, inclusive durante os testes específicos feitos pelo médico. Também é comum as radiografias apresentarem algum grau de artrose.

As lesões agudas ocorrem normalmente quando uma pessoa muda de direção de uma forma que envolve a rotação ou "torção" do joelho enquanto o mesmo é flexionado e o pé está fixo no chão. Este mecanismo ocorre frequentemente no futebol, basquetebol, futebol americano e outros desportos que envolvem desaceleração e mudança de direção. 

O grau de dor no momento da lesão é variável. A maioria das pessoas podem andar de um lado para o outro após a ocorrência de uma pequena laceração e podem continuar a participar na atividade que causou a lesão. O evento agudo é então seguido pelo início insidioso da dor e inchaço ao longo de 24 horas. A dor é exacerbada por movimentos de torção ou de rotação. As lesões graves estão normalmente associadas a uma dor mais significativa e a uma restrição precoce do movimento do joelho, dificultando até movimentos simples como caminhar.

Os pacientes com lesões meniscais podem apresentar estalos, travamentos, ou simplesmente relatar uma vaga sensação de que o joelho não está movendo-se adequadamente. Esta sensação de instabilidade está relacionada com a desinformação proprioceptiva que ocorre quando um fragmento meniscal flutua entre as duas superfícies articulares, criando a sensação de que o joelho não está na posição em que deveria estar. "Bloqueio" não significa ser completamente incapaz de mover o joelho, mas sim a incapacidade de estender o joelho por completo devido à interferência do menisco lesado.

O derrame articular (inchaço) é comum em doentes com lesões meniscais, particularmente com lacerações grandes ou complexas, e podem ocorrer intermitentemente a partir de lacerações associadas a artrite degenerativa. Os doentes com o derrame articular queixam-se tipicamente de rigidez e não de inchaço.

O diagnóstico é feito através de testes realizados pelo ortopedista que também pode solicitar exames de imagem.

Aquelas lesões estáveis e com potencial para cicatrizarem são tratadas de maneira conservadora, com medicação analgésica, antinflamatórios, aplicação medicação intrarticular, fisioterapia e outros.Abaixo serão elencadas algumas dicas importantes para o tratamento conservador:

Evitar posições e atividades que exerçam uma pressão excessiva sobre a articulação do joelho até que a dor e o inchaço se resolvam. Tais atividades incluem: agachamento, ajoelhar, torcer e girar, flexão repetitiva (por exemplo, escadas, sair de uma posição sentada, embreagem e empurrar o pedal), jogging, dança e natação.

Na dor aguda, aplicar gelo no joelho durante 15 minutos a cada quatro a seis horas, lembrando sempre de proteger a pele com um pano

Usar muletas se a dor for forte.

Começar os exercícios de levantar as pernas estendidas sem pesos à medida que a dor começa a diminuir com o objetivo de fortalecer o quadríceps para dar apoio à articulação. Comece com séries de 10 elevações de pernas e trabalhe gradualmente até 20 a 25 elevações, cada uma delas mantida durante cinco segundos. Com a melhora do quadro, podem ser adicionados pesos leves ao tornozelo, começando com um peso de meio kilo e aumentando.

Em vez dos pesos de exercício, pode ser utilizado um sapato pesado ou um saco contendo um ou mais livros.Já lesões muito grandes, instáveis, devem ser tratadas cirurgicamente, pois se não forem abordadas, além de não haver melhora dos sintomas, podem gerar lesões secundarias na cartilagem do joelho.Os seguintes fatores sugerem que a cirurgia será necessária:

Ocorreu uma lesão grave por torção e a actividade não pôde ser retomada depois

O joelho está bloqueado ou o movimento está severamente restringido – necessita avaliação médica urgente.

A dor surge com uma flexão mínima do joelho

Existe lesão do ligamento cruzado anterior associada

Ausência de melhora dos sintomas apesar de um tratamento conservador adequado

As opções cirúrgicas incluem a meniscectomia parcial ou total e a reparação(sutura) da laceração meniscal. Um princípio cirúrgico importante na realização da meniscectomia é reter o máximo possível de menisco funcional.

As pessoas com uma lesão meniscal que não forem tratadas adequadamente têm uma maior probabilidade de contrair uma condição chamada osteoartrose(desgaste da articulação) mais tarde. Portanto, se estiver apresentando sinais ou sintomas de lesão meniscal, é importante que procure o seu médico o mais rápido possível.

Fellipe Valle é médico ortopedista e traumatologista, com especialização em cirurgia de ombro e cotovelo, cirurgia do joelho, especializando em medicina da dor e ortopedia regenerativa, além de idealizador do programa Descomplicando a Ortopedia. Ele é membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia - MT, da American Academy of Orthopaedic Surgeons e da AO Trauma Latin America. É sócio fundador da associação brasileira de ultrassonografia músculo esquelética, professor de medicina na Univag e da residência de ortopedia Unic-Hgu. E-mail: [email protected]. Instagram: @dr.fellipe.   

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Cuiabá MT, 25 de Maio de 2024