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Opinião Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2026, 15:18 - A | A

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2026, 15h:18 - A | A

Bruno Moreira

A política da vaidade

Bruno Moreira
MQF

Publicado em 1837, “A Roupa Nova do Rei”, de Hans Christian Andersen, é uma fábula que atravessa gerações por expor, com uma desconfortável simplicidade, a relação entre vaidade, poder e silêncio coletivo. Embora apresentada como conto infantil, a história funciona como um retrato recorrente de como líderes e sociedades lidam com a própria imagem.

No enredo, dois falsos tecelões afirmam ter criado uma roupa especial, invisível para os incompetentes, tolos ou indignos do cargo que ocupam. Temendo ser visto como incapaz, o rei finge enxergar o tecido inexistente. A partir daí, todos ao seu redor entendem que admitir a verdade significaria confessar fraqueza ou inadequação.

Ministros e membros da corte também não veem a roupa, mas preferem elogiá-la. Ninguém quer ser o primeiro a dizer que não enxerga nada. O medo de perder espaço, prestígio ou acesso faz com que a mentira seja repetida até se tornar consenso. A ausência de crítica passa a ser confundida com lealdade.

Convencido pela admiração constante, o rei acredita que a roupa confirma sua grandeza. Ele se vê como exemplo e passa a desfilar orgulhoso, certo de que governa bem porque é aplaudido. Quanto mais elogios recebe, mais distante fica da realidade que se recusa a enxergar.

O desfile público revela o auge da encenação. Mesmo percebendo o óbvio, a multidão prefere acompanhar o coro. Aplaudir é mais seguro do que questionar. O espetáculo continua porque muitos dependem dele, e a verdade se torna inconveniente. No meio do desfile, uma criança, inocente e alheia a interesses, rompe o silêncio e expõe não apenas a vaidade do governante, mas todo o sistema que o sustenta: “o rei está nu!”.

Bruno Moreira (@obrunocos) é publicitário e gestor de marketing

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, 27 de Fevereiro de 2026